Até a COP31, o Brasil terá a chance de mostrar o que pode fazer pela humanidade, já que hospeda a maior floresta tropical do mundo. Continuaremos vigilantes.
21 de novembro de 2025 | 06:00
Por Artigo de Opinião
Dulcemar da Costa e Lílian Ribas são diretoras da BH Press Comunicação e Sustentabilidade
“Essa semana os ‘índios’ botaram pra quebrar”. Ouvimos essa frase, acompanhada de um largo sorriso de satisfação, do Seu Ronaldo, taxista que nos levou ao aeroporto no último sábado, no retorno para BH, depois de passarmos a semana em Belém, que até hoje ostenta o título de “Centro do Mundo”. Acompanhamos os primeiros sete dias da COP30 como observadoras, interessadas em ver de perto as discussões sobre sustentabilidade e mudanças climáticas e tirar as nossas próprias conclusões sobre o que é essa tal “COP da verdade” de que tanto se falou.
Para além das discussões capitaneadas pelos líderes globais a respeito de temas importantes e hermeticamente protegidos por siglas como NDCs e TFFF, Seu Ronaldo, sem saber, nos ajudou a sintetizar o que foi essa semana intensa em programações da Conferência das Partes (COP) em Belém.
Boa parte dos aprendizados da COP decorre justamente de sua localização geográfica. Estar na Amazônia, na maior floresta tropical do planeta, rica tanto pela biodiversidade que abriga quanto pelas pessoas que vivem lá, incluindo povos originários de cerca de 400 etnias, idiomas e costumes, além de sua sabedoria ancestral, fez toda a diferença.
Sob um sol de 34°C e uma umidade que aumenta a sensação de calor no modo sauna a vapor, os indígenas mostraram que, da mesma forma que na floresta existe uma relação de codependência – entre fauna, flora, solos, microrganismos e rios –, conforme a ciência já comprovou, os humanos dependem uns dos outros e, também, de todos os demais que integram esse ecossistema. De acordo com esse ponto de vista, um ambiente movido por polarizações de qualquer natureza e o “nós contra eles” parecem não fazer sentido.
Apontando como a produção em larga escala para atender aos atuais padrões de consumo – seja no agronegócio, seja na indústria, seja no extrativismo – traz impactos negativos e piora as condições de quem sempre viveu na Amazônia, os indígenas defenderam a floresta em pé e mostraram sua voz ao mundo, tomando lugar nesse grande palco que é a COP.
Da mesma forma que os indígenas, outros ativistas, de várias partes, e especialmente do Sul Global, protestaram, reivindicaram direitos e mostraram como o atual modelo econômico e de vida, seguido pelas mudanças climáticas, está afetando suas rotinas.
Se um dos desafios dos líderes mundiais é fazer com que esta seja a COP da implementação para mantermos o aquecimento global em 1,5°C, os eventos paralelos da COP evidenciaram que de norte a sul as pessoas estão arregaçando as mangas e partindo para a ação. Da bioeconomia à saúde e à educação, foram apresentados experimentos, pesquisas e ideias implantadas tanto para usar de maneira racional os recursos ambientais quanto para enfrentar as adversidades geradas pelas mudanças climáticas.
Agora, as atenções estão voltadas para as decisões que os países devem tomar em consenso para garantir a tão sonhada (e já atrasada) implementação das metas e dos financiamentos que vão garantir a implantação do Acordo de Paris.
No mais, é importante entender que, da mesma forma que essa COP não começou agora, mas há um ano, quando terminou a COP29, a liderança que o Brasil poderá exercer sobre a transição climática deve se estender até novembro de 2026, quando terá lugar a COP31.
Nesse período, o país terá a chance de botar pra quebrar, voltando ao nosso motorista, e mostrar a todos o que pode fazer pela humanidade, já que hospeda a maior floresta tropical do mundo. Até lá, nós continuaremos vigilantes.
Acesse a publicação original em: https://www.otempo.com.br/opiniao/2025/11/21/a-cop-da-verdade-de-verdade