Depois de mais de duas décadas acompanhando a evolução da agenda ESG, já vi mudanças de cenário, avanços, recuos, modismos e transformações estruturais. Mas algumas decisões ainda conseguem surpreender — e frustrar.
A decisão anunciada pela CVM na última sexta-feira, 29 de maio, flexibilizando a Resolução 193 e retirando a obrigatoriedade futura da divulgação das informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, é uma delas. E a forma como aconteceu torna tudo ainda pior: na calada da noite, no apagar das luzes da semana e do mês de maio, sem um diálogo proporcional à relevância do tema. Para profissionais de sustentabilidade que, como eu, lutam há anos por um ambiente de negócios mais transparente, a sensação é de uma verdadeira rasteira.
Mas por que a Resolução 193 era tão importante?
A resolução 193 havia colocado o Brasil em posição de destaque internacional ao alinhar o mercado aos padrões IFRS S1 e IFRS S2. Representava um avanço importante para ampliar transparência, previsibilidade e comparabilidade das informações para investidores e mercado.
Sabemos que a sustentabilidade ainda é tratada por muitas organizações como narrativa, perfumaria ou uma pauta paralela à estratégia do negócio. Em muitos casos, ainda existe um abismo entre discurso e prática. E era justamente nesse ponto que estava o potencial transformador da medida.
Grande parte das mudanças corporativas acontece impulsionada por exigências regulatórias, expectativas de investidores e gestão de riscos. A obrigatoriedade da divulgação poderia ter sido um importante gatilho para acelerar esse movimento. A expectativa era de que ela contribuiria para elevar padrões e para ampliar a visão das organizações sobre riscos e oportunidades climáticas, além da geração de valor no longo prazo.
Regulamentações existem justamente para isso.
Flexibilização e consequências
Havia alternativas para flexibilização: ajustes de prazo, implementação gradual, exigências diferenciadas por porte ou flexibilizações relacionadas à asseguração das informações.
A escolha feita traz consequências amplas: reduz incentivos à transparência e envia sinais contraditórios ao mercado. Os impactos podem alcançar reputação do país, credibilidade institucional, competitividade empresarial e custos financeiros futuros.
Agenda ESG é diferencial
Agora, fazendo um exercício de colocar a lente cor-de-rosa que nos lembra que oportunidades também podem surgir nas adversidades: este também pode ser um momento para empresas genuinamente comprometidas ampliarem sua diferenciação, permanecerem na dianteira e continuarem ditando tendências e melhores práticas.
Transparência, gestão de riscos e visão de longo prazo precisam fazer parte da estratégia empresarial independentemente da exigência regulatória.
A luta continua.

Lilian Ribas
Sócia e líder ESG