Começamos a semana com uma fonte atualizada e completa de análises sobre os relatórios de sustentabilidade publicados no Brasil. Em sua terceira edição, o Reporting Matters Brasil 2025, estudo realizado pelo CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) com base na metodologia consolidada pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), analisou 82 relatórios corporativos publicados em 2025. O estudo mostra avanço técnico consistente. Mas, para além dos números, ele revela algo mais profundo: estamos entrando em uma fase menos declaratória e mais estrutural do ESG no Brasil.
Alguns pontos que mais chamaram a minha atenção:
- A dupla materialidade deixou de ser diferencial.
75% dos relatórios analisados já a adotam. Isso é um salto importante! Mas o desafio agora é integrar essa lógica às decisões de risco e capital. Materialidade não pode ser apenas matriz diagramada, precisa ser critério de gestão. - O ESG está cada vez mais financeiro.
A integração entre GRI, SASB e TCFD(agora parte do ISSB) cresce. A convergência com ISSB e CVM está redesenhando o padrão mínimo do mercado. Sustentabilidade consolida seu espaço na governança. - A credibilidade se tornou requisito.
94% dos relatórios contam com auditoria externa. Isso muda o jogo. O ESG não é mais sobre intenção, é sobre comprovação. - O dado mais sensível: retração nas metas net zero.
As metas mais robustas de neutralização caíram significativamente, o que mostra que o mercado parece recalibrar ambição e viabilidade. Por tudo o que tenho visto no mercado, prefiro acreditar que esse resultado seja fruto de um movimento de maior rigor técnico e que ano que vem esse cenário será outro. Escolho manter a esperança e a vigilância. - Direitos humanos avançam no discurso, mas ainda precisam avançar na diligência.
93% possuem política formal. Apenas 26% mencionam devida diligência estruturada. O desafio é sair do princípio e chegar ao processo. - O relatório virou instrumento estratégico.
A média geral dos relatórios analisados subiu para 8,3. Estratégia, implementação e alinhamento ganharam força, evidenciando integração crescente com o modelo de negócio.
O que vejo emergir?
Um ambiente ESG menos retórico e mais regulado. Menos marketing e mais governança. Menos promessa ampla e mais rastreabilidade.
A pergunta que deixo é simples: estamos preparados para o próximo ciclo, em que sustentabilidade será cada vez mais medida pelo que executamos e não apenas pelas nossas intenções?

Lilian Ribas
Sócia e líder ESG